Assistir à apresentação musical com bons músicos interpretando grandes compositores populares ou eruditos é, para mim, uma das experiências sensoriais mais surpreendentes e gratificantes. Quando esse espetáculo é aliado à dança, seja ela um balé clássico, um tango ou uma roda de capoeira em frente à alfândega, o lazer simples pode se transformar em estado de graça. Ver um artista tocar um instrumento transcende o ato de ouvir boa música. A expressão corporal e o semblante do músico transmitem muito mais do que a harmonia do som que se ouve. Explicita as emoções do músico sobrepostas às do compositor e à interpretação do próprio espectador.A idéia desta série surgiu durante uma abertura do Festival Isnard de Azevedo quando assisti à peça “O Marco do Meio dia” de Antônio Nóbrega e sua troupe. Fiquei tão impressionado com a riqueza e o significado do espetáculo, que reverenciava os 500 anos da cultura musical e da dança brasileira, que decidi que precisava falar, ou melhor, pintar sobre o assunto.

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A concepção de Lugar é infinita até o momento em que se escolhe um ponto de vista e um enquadramento. As telas desta série são, cada uma, um ponto eleito no infinito de possibilidades de ângulos, enquadramentos, dinâmicas humanas (gente que passa, gente que fica…) e interpretações diversas dos lugares representados. A série Aqui, Ali mostra lugares da Ilha por onde passamos todos os dias ou, eventualmente, com os quais desenvolvemos uma relação afetiva que muitas vezes não percebemos, ou percebemos de forma incompleta em função das obrigações, preocupações e pressa do cotidiano. Os primeiros lugares escolhidos foram o Largo da Catedral e o Largo da Alfândega e Mercado Público, seguidos da esquina do Senadinho, da Escadaria e Igreja do Rosário e do Teatro Álvaro de Carvalho. A série deve ter continuidade dentro do universo de lugares apaixonantes da cidade, dos quais estes são apenas a ponta do novelo.

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O título da série surgiu de uma referência ao conceito de patrimônio “não-físico” estabelecido pela UNESCO, que inclui as festas e os saberes populares, as lendas e os cantos. “Prefiro chamá-lo de Bem Bem Físico. Não é então físico o velho que conta histórias de bruxas e pescarias, a velha que conta os pontos sem olhar para o bordado, rindo do espanto do turista?”
A aparente monotonia no formato das telas, todas nas dimensões 60x80cm, faz uma referência ao tratamento que vem sendo dado ao patrimônio no Brasil. Na maioria dos casos, ele se resume a um “etiquetamento” do bem, que muitas vezes acaba se deteriorando por falta de manutenção. Nesse aspecto, não é raro que a deterioração seja causada diretamente pela indiferença dos proprietários, que por falta de informação acabam não valorizando seu próprio patrimônio. Mas isso é uma questão cultural que deve ser revista, afinal, como diz o artista, “amar a história é como ser Narciso fitando o reflexo de outras pessoas.” E somente com o tempo poderemos aprender a nos reconhecer nas casas e causos construídos e contados por outras pessoas.

[saboya, renato – release da exposição, agosto de 2003]

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